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A atmosfera de Leave Her to Heaven lembra-nos as obsessões das pessoas habituadas a manipular todos à sua volta para conseguir o que querem. Geralmente estragam a vida aos que com eles convivem ou que caem na sua teia. Tal como no Sunset Boulevard, é a lógica da mosca e da aranha. Pensei em Sunset Boulevard pelas semelhanças da loucura do manipulador, pela ausência de vitalidade, de sentimentos, de afecto. Só que aqui a personagem, também escritor, salva-se no final, mas não sem passar um mau bocado.

 

O manipulador está geralmente numa posição de aparente poder. Digo aparente porque esse poder é alucinado, não é real. Mas o que mais surpreende é a ingenuidade dos que se deixam enredar na teia da manipulação emocional.

Personagens narcísicas que não gostam de ser contrariadas, que se julgam o centro do mundo, que desconfiam de tudo e todos, e que eliminam quem consideram um obstáculo, aqui de forma premeditada. E o obstáculo é qualquer pessoa que ocupe a atenção da pessoa-objecto da sua obsessão. E pior ainda se for alguém que seja querido pela pessoa-objecto da sua obsessão. 

A atmosfera do filme acompanha o tecer dessa teia. Quase a sentimos a formar-se à volta das personagens, da casa, do escritor. Os afectos familiares são afastados, uns de forma brusca outros de forma trágica, até ao isolamento de uma vida onde só cabem dois.

 

Quando alguém manipulador, logo incapaz de amar porque amar não é controlar e limitar, percebe ou pressente o amor genuíno em outros, o ódio que daí nasce é destruidor. Aqui trata-se de uma vingança que possa impedir a felicidade de outros. Se eu não te posso ter ninguém pode, é a lógica.

O que o manipulador não percebe é que não é uma questão de posse. Ama-se quem é livre de nos amar ou não. O amor surge naturalmente, de forma natural, familiar. Apoiam-se um ao outro, animam-se, inspiram-se.

 

A cena final é uma das minhas preferidas. Depois de todas as atribulações e sofrimento, o encontro no lago (adoro lagos e são sempre cinematográficos). Ele vem a remar um barquinho, ela espera-o ansiosa, no seu vestido branco, no pequeno cais de madeira. Abraçam-se. E vemos aquele céu sobre eles e sobre nós.

 

 

 

 

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publicado às 00:10

"Il y a longtemps que je t'aime / Jamais je ne t'oublierai..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.02.10

 

É esta canção infantil que acompanha uma das cenas finais do filme The Painted Veil. Um Somerset Maugham a navegar neste rio...

 

Podemos pegar no filme por diversos ângulos:

- como uma jovem mulher troca uma prisão emocional (a mãe, sobretudo) pelo desconhecido;

- como aprender a viver e a amar implica uma densidade emocional dolorosa... as desilusões pelo caminho... e a pena de ter magoado quem nos amou;

- como são complexas as pessoas: imprevisíveis, nada parecidas com os teus micróbios;

- como é possível a descoberta do amor e da paz depois da maior violência e indiferença.

 

Tentarei pegar pelos diversos ângulos possíveis, mas antes de tudo, gostava de falar da leveza, dessa leveza que surge na maior densidade  e intensidade emocional. É essa leveza que torna a vida suportável.

Também foi essa leveza que salvou a jovem mulher: sou uma pessoa normalíssima que gosta de passear, ir a festas, dançar, dir-lhe-á ela. É com essa atitude simples e despretensiosa que ela encara a terrível decisão que o marido a obriga a assumir. É também assim que se tenta aproximar dele, apesar da sua rejeição e desprezo. E finalmente fazer qualquer coisa, tornar-se útil de alguma forma. Mesmo que a realidade não seja nada leve ou a ideal, ela prefere ver a parte que permite melhorar a vida das pessoas.

 

Finalmente ficamos também a saber que não são tão diferentes como julgavam, há pontes que se descobrem, uma paz que desconheciam. Esperávamos um do outro o que não podíamos dar... transforma-se nessa aceitação tranquila do que o outro é e faz, de como tenta fazer o melhor possível.

 

Numa época como a nossa, de grande superficialidade e frivolidade, este filme é uma sacudidela emocional para quem o quiser ver, realmente ver. Há um caminho que se percorre, as personagens erram, enganam-se, tentam redimir-se. É esse caminho difícil, aprender a viver e a amar, crescer afinal.

 

E aqui posso retomar o fio à meada: uma jovem mulher quer libertar-se da frieza de uma mãe que não a leva a sério e não a aprecia. Este homem aparece do nada, um bacteriologista, que quer ir para a China distante. Um homem decidido e apressado. A decisão é tomada sem pensar duas vezes. E o cenário já é outro, um outro universo. De certo modo, foi uma fuga que a levou a decidir.

 

Sim, aprender a viver e a amar é sempre um caminho doloroso, emocionalmente exigente, há uma densidade e intensidade emocional que deixa marcas, há desilusões garantidas, muitos erros a lamentar como o maior de todos: magoar quem não queríamos magoar.

 

A complexidade das pessoas não é visível num microscópio, como ela lhe dirá, a imprevisibilidade, os erros, e depois a tentativa de acertar de novo, de ser útil, de fazer o que é possível.

 

Em linguagem do cinema, não posso dizer que o filme seja muito original ou particularmente brilhante. Destacam-se a fotografia, a música, algumas cenas, os actores...

Mas é um Somerset Maugham, o escritor de personagens enigmáticas que se revelam depois, tal como na vida real.

A mim comoveu-me, a sério! Já não é muito frequente um filme conseguir comover-me. E já não há muitos filmes assim, a tratar dos assuntos da vida e dos afectos, da lógica e da falta dela, de circunstâncias adversas ou coincidências felizes, de personagens vulneráveis, com esta intensidade e densidade.

 

É o segundo Edward Norton que aqui está a navegar, um actor também ele enigmático e com uma inexplicável presença nos filmes em que aparece. Nesse outro vale vemo-lo obcecado  por uma adaptação, um papel numa sociedade que não entende, e por uma família instantânea.

 

 

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publicado às 19:55


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